O mito da socialização

18 06-2014
O mito da socialização

Por Camila Abadie

“Dêem-me quatro anos para ensinar as crianças, e as sementes que eu plantar jamais serão extirpadas.” Lênin

Um dos argumentos mais frequentemente defendidos por professores, psicólogos, pais e familiares contrários ao homeschooling não diz respeito à qualidade de ensino, mas ao “fato” de que as crianças precisam se socializar, precisam conviver com outras crianças, precisam aprender a se relacionar, a lidar com as diferenças, etc. E quanto mais as famílias encolhem, restringindo a prole a uma única criança, mais parece fazer sentido um tal argumento. No entanto, algumas coisas me fazem duvidar da boa-intenção por trás da socialização.

É importante ter amigos, é importante conviver com outras crianças, todavia a infância não é um fim em si mesmo. É, eu sei, os românticos de plantão acabam de desmaiar, mas a verdade é que, tão necessário quanto brincar é o aprender a ter responsabilidades. Passa-se a maior parte da vida na idade adulta e é para ela que a criança deve ser preparada. Mas como dar-se-á uma tal preparação se a criança convive majoritariamente com iguais, com outras crianças, e não com pessoas de diferentes faixas etárias? Quem dentre elas apontará o caminho para aquilo que devem vir a ser, se, ao redor de si, há apenas quem reforçe, seja por meio da diversão ou por meio da disputa e da inveja, aquilo que já se é? Repito, brincar é necessário, é bom, é saudável, mas não é tudo. A ênfase excessiva nos direitos gera adultos que não sabem lidar com deveres, como vemos cada vez mais todos os dias.
Além disso, a ideia de que a criança aprende a se relacionar no contato com outras crianças parece-me um tanto artificial. A criança não nasce de crianças nem entre elas, mas de adultos e entre eles, entre mãe e pai. É na relação com eles e na observação da relação entre eles que a criança aprenderá a relacionar-se. Se vem de um lar violento, a criança muito provavelmente será violenta com os demais. Se vem de um lar amoroso, muito provavelmente será amorosa. Se vem de um lar onde não recebe limites, não saberá conter-se e refrear-se, mas tentará sempre obter tudo o que lhe agrada. Claro, quanto maior for a família, tanto a nuclear quanto a ampla, melhor, pois maior será a diversidade de situações nas quais a criança aprenderá a conviver. No entanto, são a mãe e o pai aqueles que servirão de mestres e de estabelecedores do fundamento emocional para os relacionamentos que virão ao longo da vida, não os professores, colegas e amigos.Outro argumento comum é aquele que fala sobre a necessária aprendizagem do convívio com os diferentes. Sim, mas pergunto: as pessoas, numa família, são todas iguais? Não possuem, cada uma, o seu temperamento, o seu jeito de lidar com as coisas, suas preferências, seus sonhos? Não é este o ambiente adequado para, debaixo do cuidado e supervisão dos pais, a criança aprender a lidar com as diferenças? Ou aprender a lidar com as diferenças é sinônimo de ser obrigado a permanecer no mesmo ambiente com quem, não raras vezes, é radicalmente diferente? Isso, para mim, assemelha-se mais a um presídio do que uma escola. Afirmar que a criança precisa da escola para se socializar soa-me tão natural quanto afirmar que um bebê necessita de uma cadeira para ser gestado. Socialização é um processo gradual que deve começar na família nuclear, expandir-se para a família ampla, para a igreja, para as famílias dos amigos dos pais e só mais tarde, quando a criança já não for mais criança, mas um jovem com convicções definidas e firmes, para a sociedade. E já que falei em juventude e em convicções, relembro aqui, mais uma vez (e perdoem-me os leitores assíduos, pois devem estar cansados da constante referência), o Maquiavel Pedagogo. Na obra, o autor explicita a comprovada técnica na qual, quanto mais cedo as crianças forem afastadas do ambiente doméstico, mais suscetíveis tornam-se às mais diversas influências externas. Em outras palavras, crianças (e quanto mais novas forem, melhor) não possuem as capacidades cognitivas suficientemente desenvolvidas para compreender quando estão sendo manipuladas ou forçadas a algo que contraria frontalmente o modo como vive ou aquilo em que sua família acredita, nem possuem estrutura emocional para resistir à força da autoridade dos professores ou da pressão dos colegas. Ou seja, a um governo comprometido com a destruição das famílias e da instauração de um regime totalitário, nada melhor do que crianças que podem ir já aos 6 meses de vida para as creches estatais, ou, na “pior” das hipóteses, que irão obrigatoriamente aos 4 anos para a escola.

Aos pais é que cabe a decisão de quando e como as crianças devem participar de um convívio social mais amplo, não ao Estado. Socialização obrigatória não é socialização. É prisão.

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