Prazer: o deus da modernidade

09 07-2012
Prazer: o deus da modernidade

Depois de ler este trecho citado abaixo do livro “A sabedoria da cruz” de Francisco Faus podemos entender melhor porque na nossa caótica sociedade um programa tão decadente como o “BBB” pode ter seus protagonistas chamados de “hérois” (sic) enquanto aquela que é mãe e cuida de seus filhos é tida como uma “coitada”, numa total inversão de valores:

Uma das grandes mentiras atuais do diabo, no seu combate contra a Cruz, consiste em convencer o mundo de que felicidade é igual a prazer, consiste em identificar felicidade e prazer, o que constitui uma das maiores falsidades que se possam imaginar. Com essa perspectiva, no mundo só existiria um mal, que seria o sofrimento; só haveria um inimigo a ser combatido com todas as armas da ciência e da técnica, da psicologia e da dialética: a dor, o sacrifício, a cruz. O novo deus pagão é o prazer.

 FELICIDADE E PRAZER

 Quem conhece um mínimo de História, sabe que, durante milênios, tanto os mais elevados espíritos pagãos como os cristãos – no Ocidente e no Oriente – chegaram à certeza de que a autêntica felicidade só podia encontrar-se na virtude, no bem, na realização do ideal divino sobre o homem. Os homens e as mulheres falhavam, pecavam, cometiam crimes, eram muitas vezes mesquinhos; mas em nenhum momento se apregoou ou se pensou que o mal residisse no sofrimento ou no sacrifício; o mal estava, sim, na falta de virtude, na falta de valores, na mentira, no desregramento, na escravidão da alma às paixões baixas, em suma, no mal moral, no pecado. Todos os heróis admirados e propostos como modelo à juventude eram homens e mulheres capazes de grandes sacrifícios, de generosas renúncias, de heróicos sofrimentos por uma causa, por um ideal que se identificava sempre com a verdade e o bem, e nunca com a auto-satisfação hedonista ou o interesse egoísta. Este era o comum denominador dos grandes personagens bíblicos – Moisés, Davi, Judite, Ester… –, dos heróis pagãos – Aquiles, Penélope, Enéias, Dido… – e dos heróis cristãos, quer se tratasse de mártires, de virgens enamoradas de Deus, de grandes servidores dos pobres; quer de modelos de cavaleiro cristão, como o rei São Luís da França ou El-Rei Dom Sebastião; ou os heróis lendários como Sir Lancelot, Tirant lo Blanc e o louco e genial Dom Quixote de la Mancha. O espelho da grandeza era a virtude. E a virtude não só tolerava, mas exigia o sofrimento heróico, paciente, e o sacrifício desinteressado, até chegar à entrega – sem um arrepio – da própria vida.

Agora, essa página de milênios parece estar sendo rasgada em muitos ambientes, para grande satisfação de Satanás. Na chamada modernidade, o pai da mentira – pelos seus mil porta-vozes – pontifica na mídia, na televisão, na Internet, no cinema, nas revistas, nas letras das canções, nas aulas dos colégios, cursinhos e faculdades, nos consultórios psicológicos, psiquiátricos ou astrológicos, e a toda a hora diz, proclama, prega, como quem define um dogma de fé incontrovertível: “Abaixo a cruz, apaguemos a cruz, deletemos o sofrimento, o sacrifício sem gosto, desprezemos o sacrifício sem o prazer da ambição, do poder, da posse, da vaidade corporal, da vaidade profissional, da vaidade esportiva. Sejamos felizes, meus senhores, e convençamo-nos de que a felicidade não está nas balelas do bem nem da virtude – isso já era! –, mas no Prazer, que é o nosso único e verdadeiro bem, o nosso único e verdadeiro deus”.

Com estes parâmetros começa infelizmente muitas vezes a formação de muitas crianças, que os pais não se atrevem a contrariar (comem o que querem, assistem aos programas de tv que querem, navegam na Internet como querem, falam grosso a quem querem, vestem como querem, sujam o que querem…); que pais e professores não ousam limitar, disciplinar, por medo de que sofram e fiquem com raiva ou traumatizadas. Assim crescem muitos adolescentes, sem um mínimo de ordem, de autodomínio, de capacidade de sacrifício e de renúncia, sem condições de fazer algo de que não gostem ou que não sintam, pois, como todos dizem, isso não seria autêntico. Assim se abalançam a um sexo sem amor nem finalidade, desumanizado e bestial, em que o prazer é a única regra, e já não há respeito, nem ideal, nem amor, nem limites para as mais aberrantes e degradantes experiências.

E como a experiência do prazer é ávida e insaciável, nunca se chega ao limite. É preciso tentar também as drogas, mergulhar no álcool, sentir a embriaguez de jogos suicidas: racha, roleta-russa, etc. A vida egoísta, sem a finalidade de um bem, acaba devorando-se a si mesma. Chega depois a idade adulta, e se manifestam então um homem ou uma mulher que, mesmo quando estão profissionalmente preparados, se revelam incapazes de assumir o sacrifício e de enfrentar a cruz que é necessária para edificar uma família, para ter e educar filhos, para ser fiéis, para ser honestos no trabalho, para compreender e suportar com paciência os defeitos dos colegas… Chegou a idade adulta e, como no conto de fadas, um dedo de criança invisível aponta para eles e diz: O rei está nu! Está nu, está despreparado, carente de virtudes, de amor à verdade e ao bem, de algo que não seja o prazer e a satisfação autista do seu eu.

Mas é justamente nesta cultura sem Cruz que se dá, em proporções nunca vistas na História, o máximo índice per capita de tristeza, de solidão, de tédio, de mau humor, de necessidade de fuga, de escravidão aos vícios e paixões, de violência, de desrespeito ao próximo, de vazio.

“A gente – diagnosticava mons. Escrivá em São Paulo, em 1974 – está triste. Fazem muito barulho, cantam, dançam, gritam – mas soluçam. No fundo do coração, só têm lágrimas: não são felizes, são desgraçados”1. No mesmo sentido, o Papa João Paulo II referia-se incisivamente a essa situação numa alocução de 18 de junho de 1991: “Não é difícil, mesmo para um observador que fique apenas no nível da psicologia e da experiência, descobrir que a degradação no campo do prazer e do amor é proporcional ao vazio que deixam no homem as alegrias que enganam e defraudam, procuradas naquilo que São Paulo chamava as «obras da carne»: Fornicação, impureza, libertinagem […], bebedeiras, orgias e coisas semelhantes (Gál 5, 19.21). A estas alegrias falsas podem acrescentar-se, e às vezes vão juntas, as que se procuram na posse e no uso desenfreado da riqueza, no exibicionismo do luxo e na ambição de poder”.

 AS DUAS SABEDORIAS

 Contemplando as conseqüências da rejeição da Cruz, entende-se melhor o que Cristo acrescentou, depois de repelir a sugestão bem-intencionada de Pedro: Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens (Mt 16, 23).

Conforme a expressão original do Evangelho, o que nesta frase se traduz por pensamento significaria propriamente o sentido profundo das coisas, a sabedoria no sentido bíblico. Por isso, é como se Cristo tivesse dito a Pedro: “Não captas, não tens interiormente o saber e o sabor das coisas de Deus, mas das dos homens”, só percebes as coisas mundanas.

É uma constante, na palavra de Deus no Novo Testamento, contrapor duas

sabedorias: a humana ou carnal, que procede das más paixões instigadas pelo Inimigo (cfr. Tg 3, 15); e a de Deus, que procede do Espírito Santo. Se há um ponto em que estas duas sabedorias se separam mais claramente, esse ponto é a Cruz.

São Paulo expressa-o com nitidez: A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que se salvam, é uma força divina […]. Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas para os eleitos – quer judeus quer gregos –, é força de Deus e sabedoria de Deus (1 Cor 1, 18.22-25).

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