Auto-domínio e mimos

18 06-2014
Auto-domínio e mimos

Fonte: J. Urteaga, Deus e os filhos, Ed. Quadrante, p. 210-214

 Faz deles homens fortes

 Auto-domínio e mimos

 “É desonra do pai ter gerado um filho indisciplinado”. (Ecl 22,3)

“O rapaz mimado é a vergonha da mãe”[1]. (Prov 29,15)

 Pais, deveis pensar que bem cedo tereis de separar-vos de vossos filhos. Se esta perspectiva vos entristece, é por causa disso a que chamais amor, mas que é egoísmo.

Se os educais para vós, estais a perder tempo; perdereis os filhos e, possivelmente, causareis a perdição deles mesmos, porque educastes mal os homens do futuro.

Não se trata de “conceder” alguma liberdade aos filhos; nem sequer de que estas liberdades seam muitas. O problema é muito mais profundo. A questão é que os vossos filhos vivam o sentido da liberdade.

Só os homens que se auto-dominam podem ser homens livres. O sentido da liberdade não pode existir em jovens escravos dos caprichos pessoais. A liberdade, em primeiro lugar, liberta-nos desta escravidão.

A liberdade opõe-se tanto ao autoritarismo dos pais como ao mimo que escraviza os filhos.

Mãe, amas os teus filhos com um amor todo feito de açucar, com um amor que é uma mistura de ternura e de melaço.

O amor, se é autêntico, deseja o bem da pessoa amada; por isso é feito de compaixão e de coragem, de paciência e de intransigência, de compreensão e de firmeza.

O mimo não é amor, é frivolidade. No amor, damo-nos; no mimo, procuramo-nos. Mimar é procurar compensações no amor.

Pais, o mimo é um dos vossos males. Aqueles que tiveram de lutar a sério na vida, de transpor barreiras e obstáculos sem conta, de suportar cotoveladas e pacandinhas nas costas de amigos e inimigos, todos esses pretendem fazer da vida dos filhos uma vida fácil. Trata-se de um daqueles erros que se pagam caro aqui na terra.

Também vós, que fostes educados autoritariamente, correis o mesmo perigo, porque, por reação contra os excessos sofridos, pretendeis adocicar excessivamente a vida dos vossos.

Dais a eles todas as comodidades; evitai-lhes toda a espécie de imprevistos e dificuldades; se pudésseis – mães fracas – sofreríeis em vez deles; prodigalizais-lhes mimos que debilitam a sua vontade; satisfazeis todos os caprichos. Com o pretexto de protegerdes, negai-lhes as mais pequenas ocasiões de adquirirem experiência. É lá convosco.

Os mimos, as carícias, os dengos, as beijocas contribuem para fazer de uma criança[2] normal, que pode ir longe na vida, um ser absolutamente inútil.

Se os teus filhos não apredem hoje a dominar-se na batalha dura da puberdade[3], haveis de vê-los amanhã convertidos nuns farrapos sem força, sem autoridade, à mercê de todas as ondas, de queda em queda, de fracasso em fracasso. Nem o dinheiro, nem o nome, nem a posição social, nem o talento terão força suficiente para calar o grito da consciência. Será que foi para isso que os trouxestes ao mundo?

Não procureis garantir aos vossos filhos uma vida fácil; é necessário temperá-los, para que possam arrostar uma vida dura. Habituai-os ao esforço. Habituai-os mais a querer do que a desejar.

“Se o homem não tivesse tido de lutar contra o frio – diz Chevrot -, ainda hoje viveria em cavernas”.

A vida dos vossos filhos será bela se, em face das adversidades e em face da contradição, mostrarem esforço, luta, renúncia, vitória, superação.

Se quereis torná-los livres, tornai-os fortes.

Quando os virdes sofrer, não vos deixes comover. Não lhes mintais quando os levardes ao médico. Não tenhais receio de lhes exigir esforços. Confiai na sua rijeza. Estimulai o heroísmo latente que reside na alma de todas as crianças.

As crianças, no colégio, não choram por causa do ardor do álcool na ferida; choram em casa, quando a mãe junta ao álcool um “pobre filhinho, como sofre!”.

Preferis uma educação viril? Então tomai nota.

Uma hora certa para se levantarem.

Uma hora certa para se deitarem.

Mais chuveiro frio do que banho quente para se lavarem.

Se a criança não está doente, que coma o que lhe põem na mesa, sem contemplações.

Não há desjejuns nem leituras na cama.[4]

Na cama, qualquer espécie de bolsas de água quente está sobrando.

É inadmissivel que as crianças peçam às empregadas aquilo que podem fazer por si próprios.[5]

Os meios de transporte para ir ao colégio são os pés, o metrô e o ônibus; quando muito, a bicicleta; mas nunca o carro do papai, “não seja que o menino se atrase”.

Ensina-os a acabar bem as coisas. É um aprendizado que custa, possivelmente uma das artes mais difíceis de praticar.

E…joga-os na água – onde não for preciso um homem-rã para tirá-los-; mas joga-os na água.

Pede ao Espírito este dom de fortaleza para os teus filhos: ele acrescentará à rijeza humana, que vão adquirindo com o esofrço repetido, uma alegria e uma facilidade que revelam o auxílio divino.[6]

Mas se o que tu procuras é uma educação mais de acordo com os teus caprichos, transcrevo-te umas linhas que foram escritas à sério, ainda que soem a brincadeira: “Parece-nos que o corno da caça é o instrumento mais adequado para acordar as crianças – diz o Diretor da Nova Escola de Aquitânia-. Começa-se o acordar por uma alvorada quase imperceptível, como se o alento mais se insinuasse no instrumento; pouco a pouco, aumenta-se a intensidade das notas; muito depois, toca-se e volta-se a tocar; e as crianças ouvem o fim dos sonhos a mesma música com que se anuncia o seu despertar. Sem comoções, sem sobressaltos, sem estridências, nasce a vida na escola como o sol no horizonte…”.

Se queres divertir-te com o novo método, compra um corno de caça; mas se o que tu pretendes é que as crianças se levantem, deixa-o cair sobre eles. O acordar sempre há de ser aborrecido.

É preciso tomar as crianças a sério; não são brinquedos dos pais. Mas também não podem ser brinquedos deles próprios. Todas as crianças tem um rei na barriga; um rei que não se deve matar nem escravizar; um rei que, embora educado em liberdade, deve estar ao serviço dos outros. Uma vida de mimo e capricho transforma esse rei no protagonista, na personagem importante, no centro do mundo familiar: outro erro perigoso e insuportável,

Agora que os teus filhos vão ganhando gosto pela leitura, oferece-lhe Caminho e deixa-o aberto no ponto n. 295: “Se não és senhor de ti mesmo, ainda que sejas poderoso, dá-me pena e riso o teu senhorio”.

Liberdade! Domínio de si mesmo! Disciplina! Vontade! Se o que pretendemos é fazer dos teus filhos homens com senso e responsabilidade, convence-te de que precisam de muita liberdade, de capacidade de deliberação, de decisão e de uma vontade forte.

 

 

[1] Tradução da Bíblia Ave Maria: “[Vara e correção dão sabedoria]. Menino abandonado à sua vontade se torna a vergonha da mãe”

[2] No original está “rapaz”, mas adaptaremos todas as vezes que aparece este termo por este outro: “criança” porque o mal causado é para ambos os sexos.

[3] O autor fala da puberdade neste capítulo, porém, seguindo o educador Monsenhor Álvaro Negromonte, é lícito afirmar que a criança deve ser educada para o auto-domínio deste os primeiros instantes da vida.

[4] O que dizer então de TV, internet e filmes deitados na cama? Nem pensar.

[5] Nem à empregada nem à ninguém. Aqui entraria também a necessidade de educar os filhos a ajudarem na lida da casa, diariamente, a não ser que queiramos filhos totalmente ingratos e preguiçosos.

[6] N.E. Se o teu filho resmunga por ter que dobrar a roupa que ele usou ou lavar o banheiro é sinal de que já está com o vício da preguiça e acostumado com a ingratidão. Quando ele começar a ser treinado (e o treino no início é um martírio para quem teve tudo nas mãos), sentirá repulsa até que, com perseverança da mãe que o treina e dele, começará a sentir alegria e, finalmente, ele mesmo pedirá para ajudar.

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