Papa Bento XVI ensina diferença de “enamorar” e “amar”

03 07-2012
Papa Bento XVI ensina diferença de “enamorar” e “amar”

SERGE RAZAFINBONY E FARA ANDRIANOMBONANA (um par de noivos de Madagáscar):

SERGE: Santidade, somos Fara e Serge, e vimos de Madagáscar.

Conhecemo-nos em Florença, onde estamos a estudar – eu engenharia, e ela economia. Iniciámos o noivado há quatro anos e sonhamos, logo que fizermos o doutoramento, voltar ao nosso país para dar uma mão ao nosso povo, inclusive através da nossa profissão.

FARA: Os modelos de família que predominam no Ocidente não nos convencem, mas estamos cientes de que também muitos tradicionalismos da nossa África precisam de ser em certa medida superados. Sentimo-nos feitos um para o outro; por isso queremos casar e construir um futuro juntos. Queremos também que cada aspecto da nossa vida seja orientado pelos valores do Evangelho.

Mas, falando de matrimónio… Santidade, há uma palavra que, mais do que qualquer outra, nos atrai e ao mesmo tempo nos assusta: aquele «para sempre»…

PAPA: Queridos amigos, obrigado por este testemunho! Contai com a minha oração neste caminho do noivado e espero que possais criar, com os valores do Evangelho, uma família «para sempre». A Fara aludiu a diversos tipos de casamento: conhecemos o «mariage coutumier» da África e o casamento ocidental. Mesmo na Europa – verdade seja dita –, até ao século XIX, predominava um modelo de casamento diverso do actual: muitas vezes o casamento era, na realidade, um contrato entre clãs, no qual se procurava manter o clã, abri-lo ao futuro, defender as propriedades, etc. A escolha dos noivos era feita pelo clã, esperando que as coisas funcionassem um com o outro. E assim sucedia, em parte, também nos nossos países; lembro-me duma cidadezinha, aonde fui à escola, que as coisas ainda se passavam em grande parte assim. Entretanto, com o século XIX, vem a emancipação do indivíduo, a liberdade da pessoa… e o casamento já não se baseia na vontade alheia, mas na própria escolha; começa-se pelo enamoramento, passa-se ao noivado e depois ao casamento. Naquele tempo, estávamos todos convencidos de que este fosse o único modelo certo e que o amor, por si mesmo, garantisse o «sempre», já que o amor é absoluto, quer tudo e, consequentemente, também a totalidade do tempo: é «para sempre». Infelizmente, não era assim a realidade: vê-se que o enamoramento é lindo, mas talvez não sempre perpétuo, tal como o sentimento que não permanece para sempre. Vê-se, pois, que a passagem do enamoramento ao noivado e, depois, ao casamento requer várias decisões, experiências interiores. Como disse, é lindo este sentimento do amor, mas deve ser purificado, deve seguir por um caminho de discernimento, isto é, devem entrar também a razão e a vontade; devem unir-se razão, sentimento e vontade. No rito do matrimónio, a Igreja não pergunta: «Está enamorado?» Mas: «Quer…», «Está decidido…». Ou seja: o enamoramento deve tornar-se verdadeiro amor, envolvendo a vontade e a razão num caminho – o caminho do noivado – de purificação, de maior profundidade, de tal modo que realmente o homem inteiro, com todas as suas capacidades, com o discernimento da razão, a força da vontade, possa dizer: «Sim, esta é a minha vida». Penso muitas vezes nas bodas de Caná. O primeiro vinho deixou-os felicíssimos: é o enamoramento. Mas não dura até ao fim: deve aparecer um segundo vinho, isto é, deve ferver e crescer, amadurecer. Um amor definitivo que se torne realmente «segundo vinho» é mais lindo, é melhor do que o primeiro vinho. E é isto que devemos procurar… Aqui é importante também que o eu não fique isolado, o eu e o tu, mas que seja envolvida também a comunidade da paróquia: a Igreja, os amigos… Tudo isto – a personalização plena e justa, a comunhão de vida com os outros, com as famílias que se apoiam umas às outras – é muito importante e só assim, neste envolvimento da comunidade, dos amigos, da Igreja, da fé, do próprio Deus é que  cresce um vinho que dura para sempre. Muitas felicidades para ambos!

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