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  • Posted on Janeiro 13, 2025Janeiro 13, 2025
  • Feminilidade, Feminismo, Matrimônio, Mulher
  • Julie Maria

A mulher moderna

 Por Papa Pio XII
O caráter da vida da mulher e a iniciação da cultura feminina eram inspirados, conforme a mais antiga tradição, pelo seu instinto natural que Deus atribuía como reino próprio de atividade a família, a não ser no caso de por amor de Cristo preferir a virgindade. Retirada da vida pública e à margem das profissões públicas, a jovem, como flor que cresce guardada e reservada, estava destinada por sua vocação a ser esposa e mãe.
Junto da mãe aprendia os labores femininos, os cuidados e negócio da casa e tomava parte na vigilância dos irmãos e irmãs menores, desenvolvendo assim as forças, o engenho, e instruindo-se na arte e no governo do lar. Manzoni apresenta na figura de Lúcia a mais alta e viva expressão literária desta concepção.
As formas simples e naturais em que a vida do povo se desenvolvia, a íntima e prática educação religiosa, que durante o século XIX tudo animara, o uso de contrair muito cedo o matrimônio, ainda possível naquelas condições sociais e econômicas, a preeminência que a família tinha no movimento do povo, tudo isto e outras circunstâncias mais, que entretanto mudaram radicalmente, constituíam o primeiro alimento e sustentáculo para aquele caráter e forma de cultura da mulher.
Hoje, pelo contrário a antiga figura feminina está em rápida transformação. Podeis ver que a mulher, e sobretudo a jovem, saem de seu retiro e entram em quase todas as profissões, até aqui exclusivo campo de ação e vida do homem.
Desde há bastante tempo vinham-se já manifestando sinais a princípio tímidos e depois cada vez mais vigorosos desta transformação, causados principalmente pelo desenvolvimento da indústria no progresso moderno. Mas desde alguns anos a falange feminina, qual torrente que, rompidos os diques, vence toda a resistência, parece ter penetrado em todo campo da vida do povo.
E se tal torrente contudo não se difundiu igualmente em todos os sentidos, não é difícil encontrar-se o curso até na mais remota aldeia sertaneja; enquanto no labirinto das grandes cidades, como nas oficinas e nas indústrias, o antigo costume e orientação houve que ceder o passo incondicionalmente ao desenvolvimento moderno.
***
Digamos imediatamente que para nós o problema feminino, tanto em seu complexo, como em cada um de seus múltiplos aspectos particulares, consiste todo na conservação e no incremento da dignidade que a mulher recebeu de Deus. Para nós portanto não é um problema de ordem meramente jurídica ou econômica, pedagógica, ou biológica, política ou demográfica; mas que, embora em sua complexidade, gravita todo em torno da questão: como manter e reforçar aquela dignidade da mulher, maximamente hoje, nas conjeturas em que a Providência nos colocou?
Ver de outro modo o problema, considerá-lo unilateralmente sob qualquer dos aspectos mencionados, seria o mesmo que iludi-lo, sem proveito algum para quem quer que seja, menos ainda para a própria mulher. Separá-lo de Deus, da sábia ordem do Criador, de sua santíssima vontade, é obliterar o ponto essencial da questão, quer dizer a verdadeira dignidade da mulher, dignidade que ela tem somente de Deus e em Deus.
Disto procede que não estão em grau de retamente considerar a questão feminina os sistemas que excluem da vida social Deus e sua lei, e aos preceitos da religião concedem, ao máximo, um humilde lugar na vida privada do homem.
Em que consiste portanto esta dignidade que a mulher tem de Deus?
Interrogai a natureza humana, qual o Senhor a formou, elevou, redimiu no sangue de Cristo.
Em sua dignidade de filhos de Deus, o homem e a mulher são absolutamente iguais, como também a respeito do fim último da vida humana, que é a eterna união com Deus na felicidade do céu. É glória imortal da Igreja ter colocado em luz e em honra esta verdade e haver livrado a mulher de uma degradante servidão contrária à natureza.
Mas o homem e a mulher não podem manter e aperfeiçoar esta sua igual dignidade, senão respeitando e colocando em ato as qualidades particulares, que a natureza lhes concedeu a um e a outra, qualidades físicas e espirituais indestrutíveis, das quais não é possível mudar a ordem, sem que a própria natureza sempre, novamente, a restabeleça.
Estes caracteres peculiares, que distinguem os dois sexos, mostram-se com tanta clareza aos olhos de todos, que somente uma obstinada cegueira ou um doutrinarismo, não menos funesto que utópico, poderia nas ordens sociais desconhecer ou quase ignorar-lhes o valor.
Ainda mais. Os dois sexos, por sua própria qualidade particular, são ordenados, um para o outro de tal modo que esta mútua coordenação exercita seu influxo em todas as múltiplas manifestações da vida humana social. Nós nos limitaremos aqui a recordar dois, por suas especiais importâncias: o estado matrimonial e o celibato voluntário, segundo o conselho evangélico.
O fruto de uma verdadeira comunidade conjugal compreende não somente os filhos, quando Deus os concede aos esposos, mas também os benefícios materiais e espirituais que a vida de família oferece ao gênero humano. Toda a civilização em cada um de seus ramos, os povos e a sociedade dos povos, e a própria Igreja, em uma palavra, todos os verdadeiros bens da humanidade ressentem os felizes eleitos, onde esta vida conjugal floresce na ordem, onde a juventude se habitua a contemplá-la, a honrá-la e a amá-la como um santo ideal.
Onde, entretanto, ambos os sexos não são, reciprocamente, senão objeto de egoísmo e de cupidez; onde não cooperam de mútuo acordo para o serviço da humanidade segundo os desígnios de Deus e da natureza: onde a juventude, descurando suas responsabilidades, superficial e frívola em seu espírito e em sua conduta, torna-se moral e fisicamente inapta para a vida santa do matrimônio; aí os bens comuns da sociedade humana, na ordem espiritual e temporal, se encontram gravemente comprometidos, e a própria Igreja de Deus treme, não por sua existência – ela tem a promessa divina! – mas pelo maior fruto de sua missão entre os homens.
Mas eis que, desde vinte séculos, em cada geração, milhares e milhares de homens e mulheres, entre os melhores, renunciam livremente, para seguir o conselho de Cristo, a uma própria família, os santos deveres e sagrados direitos da vida matrimonial. O bem comum dos povos e da Igreja, fica talvez correndo perigo?
Pelo contrário! estes espíritos generosos reconhecem a associação dos dois sexos no matrimônio como um elevado bem. Mas se se afastam da vida ordinária, da estrada batida, estes, longe de desertarem, consagram-se ao serviço da humanidade, com completo desapego de si mesmos e de seus próprios interesses, em uma ação incomparavelmente mais ampla, total, universal.
Olhai aqueles homens e aquelas mulheres: contemplá-los-eis na oração e na penitência: dedicados na instrução e educação da juventude e dos ignorantes: inclinados na cabeceira dos doentes e dos agonizantes; de coração aberto a todas as misérias e a todas as debilidades, para reabilitar, para confortar, para aliviar, para a todos santificar.
Quando pensamos nas jovens e nas mulheres que renunciam voluntariamente ao matrimônio, para consagrarem-se a uma vida mais elevada de contemplação, de sacrifícios e de caridade, logo sobe aos lábios uma luminosa palavra: a vocação! É a única palavra que exprime tão elevado sentimento.
Esta vocação, esta chamada de amor, faz-se ouvir de modos mais diversos, como infinitamente várias são as modulações da voz divina: convites irresistíveis, inspirações afetuosamente solicitantes, suaves impulsos. Mas também a jovem cristã, tendo permanecido a contragosto sem núpcias, que, porém, firmementre crê na Providência de um Pai Celeste, reconhece nas vicissitudes da vida a voz do Mestre: “Magister adest et vocat te“: O Mestre está aqui e te chama! Ela responde; ela renuncia ao caro sonho de sua adolescência e de sua juventude: ter um companheiro fiel na vida, constituir uma família e na impossibilidade do matrimônio discerne sua vocação, então, com o coração partido, mas submisso, ela também se dá totalmente às mais nobres e multiformes obras boas.
Em um como em outro estado o dever da mulher aparece nitidamente traçado pelos lineamentos, pelas atitudes, pelas faculdades peculiares ao seu sexo. Colabora com o homem, mas no modo que lhe é próprio, segundo sua natural tendência. Ora o ofício da mulher, sua maneira, sua inclinação inata, é a maternidade. Toda mulher é destinada para ser mãe; mãe no sentido físico da palavra, ou em um significado mais espiritual e elevado, mas não menos real.
A este fim o Criador ordenou todo o ser próprio da mulher, seu organismo, mas também seu espírito e sobremodo sua especial sensibilidade. De  modo que a mulher, verdadeiramente tal, não pode de outro modo ver nem compreender a fundo todos os problemas da vida humana, senão com relação à família. Por isto o sentido agudo de sua dignidade a coloca em apreensão cada vez que a ordem social ou política ameaça prejudicar sua missão materna, em favor da família.
Tais são hoje, infelizmente, as condições sociais e políticas; elas poderiam se tornar ainda mais incertas para a santidade do lar doméstico e portanto para a dignidade da mulher. A vossa honra soou, mulheres e jovens católicas: a vida pública tem necessidade de vós: a cada uma de vós, pode-se dizer: “Tua res agitur“.
Que desde muito tempo os acontecimentos públicos tenham-se desenvolvido de modo não favorável ao bem real da família e da mulher, é uma fato inegável. E para a mulher, voltam-se vários movimentos políticos, para ganhá-la à sua causa. Alguns sistemas totalitários colocam diante de seus olhos magníficas promessas; igualdade de direitos com os homens, proteção das gestantes e das parturientes, cozinha e outros serviços comuns que a libertarão do peso das obrigações domésticas, jardins públicos para a infância e outros institutos, mantidos e administrados pelo Estado e pelos próprios filhos, escolas gratuitas, assistência em caso de doenças.
Não queremos negar as vantagens que podem ser tiradas de uma e de outra destas providências sociais, se aplicadas nos devidos modos. Nós mesmos, em outras ocasiões, observamos que à mulher é devida, pelo mesmo trabalho e à paridade de rendimento, a mesma remuneração que ao homem é dada.
Permanece, porém o ponto essencial da questão, a que já acenamos: a condição da mulher, com isto se tornou melhor? A igualdade de direitos com o homem, trazendo o abandono da casa onde ela era Rainha, sujeita a mulher ao mesmo peso e tempo de trabalho. Desprestigiou-se a sua verdadeira dignidade e o sólido fundamento de todos seus direitos, quer dizer, o caráter próprio de seu ser feminil e a íntima coordenação dos dois sexos; perdeu-se a vista o fim desejado pelo Criador para o bem da sociedade humana e sobretudo pela família.
Nas concessões feitas à mulher, é fácil de perceber, mais que o respeito de sua dignidade e de sua missão, a mira de promover a potência econômica e militar do Estado totalitário, do qual tudo deve inexoralmente ser subordinado.
De outra parte, pode talvez a mulher esperar o seu bem-estar verdadeiro de um regime de predominante capitalismo?
Nós não temos necessidade de descrever-vos agora as conseqüências econômicas e social que deste derivam. Vós conheceis os sinais característicos e trazeis vós mesmas o peso; excessivo aglomerar-se das populações nas cidades, progressivo e invasor aumento das grandes empresas, difíceis e precárias condições das demais indústrias, especialmente do artesanato e também ainda mais da agricultura, extensão inquietante da desocupação.
Recolocar o mais possível em honra a missão da mulher e da mãe, no lar: tal é a palavra que de tantas partes de levanta, como um grito de alarma, como se o mundo se despertasse quase aterrado pelos frutos de um progresso material e técnico, do qual se mostrava antes tão orgulhoso.
Observemos a realidade das coisas.
Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono, e esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falta de cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos quatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia, ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida da família? e quais os atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?

A estas penosas consequências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo da jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será incapaz de encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gosto pelas austeras ocupações domésticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das mesmas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como esposa e mãe.

(“Dai-me mães verdadeiramente cristãs e eu salvarei o mundo decadente” – São Pio X)

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